EUROPA

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Descobrindo o "Antigo Continente"

segunda-feira, 28 de setembro de 2009

LONDRES HOJE...


London Hoje
A antiga cidade continua mudando – e nos dias de hoje, muda com pressa. Não é sempre que uma eleição é um espetáculo. Mas a eleição para prefeito de Londres em 1º de maio de 2008 –é eleito pelo voto direto de 7,5 milhões de eleitores da Grande Londres desde 2000 – poderia vir a ser. Parece ser uma luta dura e acirrada entre dois personagens importantes, personalidades tão fortes que nem precisam de sobrenome: trata-se de Boris versus Ken.Boris Johnson, o loiro, parlamentar do partido conservador por Henley e ex-editor de The Spectator, aparentemente faz política para se divertir. Ken Livingstone, o atual prefeito de voz esquisita, luta para conseguir o terceiro mandato. O primeiro parece personificar a Londres da tradição, onde os ônibus Routemasters pudessem circular e pudessemos tomar cerveja quente no calor do Império; o último almeja uma Londres mais séria, global, progressiva e aberta. Atrás dessas primeiras e evasivas impressões, os detalhes são intrigantes. Livingstone é um político com mais de 30 anos de carreira. Era esquerdista do Greater London Council. Tanto atormentou Margaret Thatcher que ela o destitui. Era tão esquerdista que Tony Blair não queria indicá-lo como candidato do Partido Trabalhista para as eleições inaugurais de 2000. Livingstone introduziu o que de fato é um imposto verde (o Imposto de Congestionamento, cobrado sobre qualquer carro que entre no centro expandido de Londres), angariando fundos para as tão necessárias melhorias no transporte público e incentivando os motoristas a usarem menos o carro.Livingstone também é o cara que se livrou dos ônibus Routemasters, substituindo-os, em parte, pelos ônibus sanfonados de 18 metros; foi ele que trouxe as Olimpíadas para a cidade e que assinou um acordo com o socialista Hugo Chávez para comprar petróleo mais barato da Venezuela. Johnson, por outro lado, é a nova geração do Tory, um Conservador de Notting Hill da mesma forma que Blair era um Trabalhista de Islington. Produto de uma educação cara (Eton, Oxford), Johnson combina comportamento afável e atitudes aparentemente tranqüilas em relação à vida moderna. Ele pedala. Ele corre. Aparece às vezes em programas de entrevista na televisão. Sua delicadeza seria inimaginável, até recentemente, no aristocrata Partido Conservador. Na verdade, seu temperamento amigável já suscitou comentários que poderiam ter derrubado qualquer outra pessoa – redeu apelidos como ‘garotão’, por exemplo. Suas políticas são flexíveis, mas apóia o mercado aberto, o discurso aberto, o Estado pequeno, os impostos baixos. Suas preocupações? O eleitorado foi convidado a votar pelo candidato preferido entre os conservadores: Johnson venceu com 80% dos votos. Mas, apesar de atrair uma boa cobertura de mídia, somente 20 mil votos foram colocados nas urnas. A disputa tende a ficar melhor ainda em maio, com os debates iniciais entre os concorrentes. Livingstone chama Johnson de ‘charmoso brincalhão’, atentando para o fato de a eleição se tornar um ‘Celebrity Big Mayor’, numa referência aos programas de reality show. Boris retrucou com uma afirmação simples e séria, e acusou Ken de gastar dinheiro do contribuinte. Livingstone responde: ‘Boris Johnson não apresenta propostas sérias para Londres simplesmente porque não tem nenhuma’. E menciona suas três grandes ações com relação ao crime, habitação e transporte. Além disso, alardeia seu sucesso embasado o acordo com a Crossrail, ressaltando as oportunidades de desenvolvimento que ela criará e explicando como ‘passa pelos bairros londrinos de maior depravação’. São os votos de ricos e pobres a bordo. Mas isso não é tudo. Os coajuvantes nos dizem muito também sobre o atual estado de Londres. Brian Paddick, ex-chefe de polícia gay, é responsável por um controverso relaxamento nas leis anti-maconha no sul de Londres em 2001. É atualmente um candidato possível para a prefeitura pelo Liberal Democrata. Sua bandeira? Crime, transporte e questões ambientais. Os Greens vão indicar um candidato; os direitistas do BNP também. É claro, política é assim.Quem pode afirmar se um ou mais candidados terão de desistir das eleições por causa de algum escândalo ou tragédia pessoal, mudança de sexo ou simples mudança de opinião sobre algum assunto importante? Mas os temas principais estão claros: transporte, moradia e crime. As políticas ambientais deverão ser aceitas, principalmente em relação ao transporte. Os ‘buracos negros’ nos financiamentos serão identificados, negados imediatamente, explicados ou terão os números contestados.Dois outros tópicos também serão abordados: imigração e o status de Londres como cidade global – com referência implacável ao seu papel como sede das Olimpíadas de 2012, e aos olhares invejosos e condescendentes das derrotadas Paris e Nova York. Boris já disse que vai medir seu sucesso não em comparação a Ken Livingstone, mas em comparação ao prefeito da poderosa Nova York, Michael Bloomberg.Tais comparações com Nova York podem sugerir inveja, mas Paris é hoje um assunto seguro. Depois que o recepcionista fofoqueiro do nosso hotel francês nos disse que gostaria de morar em Londres porque não gostava dos seus compatriotas, podemos dizer maliciosamente que Londres é a sétima maior cidade da França. Ele quase enlouqueceu, mas é verdade. Talvez 200 mil franceses morem em Londres. São jovens, em média 29 anos. E não se trata de encanadores do leste europeu ou de habitantes do sudeste asiático fugindo da pobreza; precisamos proteger nossos empregos dos velhos inimigos franceses. Felizmente Londres está mostrando sinais de que aceita sua condição híbrida – mas o caminho ainda é longo, com o assunto da imigração sempre em pauta na sua história. Um momento interessante foi a inauguração, com um mês de diferença no final de 2007, de três sensuais centros artísticos, cada um dedicado à diversidade cultural, todos do badalado arquiteto David Adjaye. O Stephen Lawrence Centre, em Deptford, Rivington Place, em Shoreditch, e o Bernie Grant Centre, em Tottenham. Todos são prédios modernos, abertos, estilosos e com linhas retas – uma façanha considerável em Deptford, onde duas janelas foram quebradas possivelmente por extremistas descontentes com a simples menção do nome do adolescente negro assassinado, Lawrence. Esses prédios não atrairão visitantes com celulares com câmera, como faz o simbólico Gherkin. Mas o Gherkin é realmente só um bom exemplo da City se exibindo, mostrando seu baú de dinheiro desde que Gresham inaugurou o Royal Exchange nos tempos elizabetanos. E sendo de Adjaye, deverá ter algo de novo. No entanto, a roupa nova do imperador tem várias facetas. Um delas, a decisão da British Film Institute de criar uma marca para a sensível denominação National Film Theatre, algo que ficou conhecido como BFI Southbank.A outra são os consultores de marcas intrometendo-se nas Olimpíadas de 2012. Sugeriram um logo, projetado para chamar a atenção das crianças, mas considerado insosso e desde já antiquado. Enquanto isso, as instalações de treinamento da cidade continuam maltrapilhas, com o Palácio de Cristal está fechado. E os custos? Para o Estádio Olímpico já não são mais os orçados £280 milhões, mas £496 milhões. Algum esperto esqueceu de incluir a inflação e o VAT. Boris Johnson aceitou sua canditatura para a prefeitura de Londres fazendo uma ameaça bem provocativa: ‘Os dias do rei Newt estão contados’. Quando estiver lendo isto, o prefeito Ken poderá já ser uma carta fora do baralho. E então de quem será a cidade? Talvez pertença a qualquer pessoa que tenha uma história para contar desse lugar. O que é o mesmo que pergutar: De quem é a cidade? É sua, se quiser.

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