EUROPA

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Descobrindo o "Antigo Continente"

segunda-feira, 28 de setembro de 2009

LONDRES E SUA ARQUITETURA


Arquitetura:

Renascentista, georgiana, vitoriana e moderna – aos montes.
Como nunca antes, a arquitetura londrina está em alta. Quase literalmente. Ken Livingstone gosta de prédios altos e a maioria dos conselhos regionais concorda com ele. Nos últimos cinco anos foram aprovadas mais propostas de arranha-céus do que nas duas décadas anteriores juntas. É só dar uma olhada ao redor para perceber que esses projetos grandiosos irão alterar de forma significativa o panorama da cidade, antes feita de praticamente de prédios baixos de tijolos.
É verdade que Londres está em constante fluxo criativo, mas alguns fluxos são mais extremos que outros. Ainda leva tempo para que a cidade fique parecida com Chicago, que cresceu em direção ao céu depois do incêndio em 1871, mas a Londres moderna também formou sua personalidade depois de uma tragédia do Grande Incêndio de 1666. O fogo destruiu cinco sextos da City of London, deixando em cinzas cerca de 13.200 casas e 89 igrejas.
A história não tem o registro exato de quantas pessoas morreram. Foram poucas as vítimas registradas. A devastação é lembrada no Monument, de Sir Christopher Wren, de 62 metros; muitos dos mais belos prédios da City ainda estão de pé para atestar o talento desse homem, o arquiteto da reconstrução, e de seus sucessores. Londres era uma cidade densamente populosa, feita de madeira, com um primitivo controle contra incêndios.
Foi somente depois de três dias de inferno que as autoridades concordaram em estabelecer regras para as construções. Pedra e o tijolo seriam os materiais básicos e as ruas principais seriam alargadas para dificultar a propagação do fogo. Apesar das propostas grandiosas dos arquitetos (inclusive de Wren) de reconfigurar a cidade seguindo linhas clássicas, Londres foi remodelada seguindo o desenho de suas antigas ruas, onde os prédios sobreviventes seriam monumentos ao passado.
O principal é a Torre de Londres de Norman, iniciada depois da conquista de Guilherme em 1066 e seguindo pelos próximos 300 anos; a Marinha conteu as chamas do Grande Incêndio implodindo as casas vizinhas antes que o inferno pudesse atingi-la. A Westminster Abbey também sobreviveu; começou a ser erguida em 1245 quando o local ficava muito distante das muralhas de Londres e concluída em 1745 quando o arquiteto das igrejas Nicholas Hawksmoor adicionou as torres ocidentais.
Embora a abadia seja a mais francesa das igrejas góticas da Inglaterra, com influência vinda do outro lado do canal, a capela adicionada por Henrique VII, concluída em 1512, é puro estilo Tudor. Séculos mais tarde, Washington Irving declarou: ‘Parece que o peso e a densidade das pedras, maestralmente lapidadas, foram retirados, para que pudessem ser suspensas com se fosse mágica.’
A renascença européia chegou atrasada na Grã-Bretanha, fazendo sua estréia em Londres em 1622 com Banqueting House, de Inigo Jones. O suntuoso teto decorativo adicionado por Rubens em 1635 celebrava o Direito Divino da monarquia Stuart, embora 14 anos depois o rei Charles I tenha proporcionado um espetáculo ainda maior ao ser expulso da sala e decapitado em seguida. Os turistas também devem a Jones a St Paul’s Covent Garden e a imaculada Queen’s House em Greenwich.
Mas esses não são seus únicos legados. Também projetou praças (a famosa de Covent Garden), pórticos e pilares, mudando a cara da arquitetura britânica para sempre. Seu trabalho influenciou as carreiras das gerações seguintes de arquitetros e introduziu o hábito de venerar o passado, que levaria 300 anos para desaparecer. Nada agrada mais a um construtor do que um desastre natural. Dá para imaginar o contentamento de Christopher Wren e companhia na reconstrução após o Grande Incêndio.
Enfeitaram o clássico: os arcos pontudos do gótico inglês foram arredondados, as colunas coríntias apareceram e as torres das igrejas granharam múltiplas camadas como um bolo de casamento. Wren fez planos ousados para a St Paul’s Cathedral, gastando a quantia monstruosa – para a época – de £500 na maquete de carvalho do seu projeto. Mas o esquema, incorporando um domo católico ao invés de uma torre protestante, era romano demais e o design foi rejeitado. Rapidamente Wren o remodelou e conseguiu permissão para a construção ao incorporar uma torre.
Apesar das várias reviravoltas – o domo lembra um templo antigo – construiu a igreja que vemos hoje. A herança arquitetônica foi herdada por Nicholas Hawksmoor e James Gibbs, que se beneficiaram de um decreto de 1711 determinando a construção de mais 50 igrejas. Gibbs ficou ocupado com a Trafalgar Square, com o templo romano de St Martin-in-the- Fields, e com a barroca St Mary-le-Strand e a torre de St Clement Danes. O trabalho de Gibbs foi bem recebido, mas o mais prolífico e experimental Hawksmoor tinha um lado mais inconstante.
St George’s, em Bloomsbury, custou três vezes seu orçamento de £10 mil e levou 15 anos para terminar. Também lembra o espírito dos antigos. Ao invés da torre, há uma pirâmide pontuda com uma estátua de George I de toga. De uma grande família escocesa de arquitetos, Robert Adam se viu na liderança de um movimento que via o barroco italiano como a corrupção da verdade. A exuberância arquitetônica era deixada de lado em favor de uma interpretação simples das formas antigas.
O melhor trabalho de Adam e seus irmãos James, John e William pode ser visto nas grandes casas suburbanas de Osterley Park, Syon House e Kenwood House (ver pág.158), mas o mais famoso de seus projetos não existe mais. Em 1768, um caro empreendimento de casas foi feito em Adelphi, na Strand. A maior parte do complexo foi abaixo nos anos 1930 e para abrir espaço para um complexo de escritórios. Só uma pequena parte do projeto original existe, onde hoje é o Royal Society of Arts (8 John Adam Street, Covent Garden, WC2).
Quando os primeiros moradores se mudavam para o Adelphi, um jovem desconhecido chamado John Soane embarcava para Irlanda. Acabou não indo e Soane foi chamado para construiu o Bank of England e a Dulwich Picture Gallery. O Bank foi demolido no entre-guerras. Ficaram só as paredes e a obra-prima de Soane em Londres foi destruída, embora seu gracioso Stock Office tenha sido reconstruído em um museu. Há mais detalhes no Sir John Soane’s Museum, uma experiência arquitetônica extraordinária e maravilhosa.
Quase-contemporâneo de Soane, John Nash era sem dúvida menos talentoso, mas suas contribuições mostraram ser comparáveis às de Wren. Entre seus prédios estão o pátio interno do Buckingham Palace, o Theatre Royal Haymarket (Haymarket, SW1) e a Regent Street (Soho/Mayfair, W1). No começo, a Regent tinha a proposa de ligar o West End a um parque mais ao norte, assim como separar os bacanas de Mayfair dos pobres do Soho , e nas palabras de Nash, ‘uma completa separação entre as Ruas ocupadas pela Nobreza e Burguesia, e as ruas estreitas e casas mais simples ocupadas pela parte operária e comercial da comunidade’.
Nos anos 1830, a forma clássica dos prédios era estabalecida na Inglaterra para os 200 anos seguintes, mas isso não impediu as pressões por mudanças. Em 1834, a Houses of Parliament pegou fogo, levando à construção da obra de arte gótica de Sir Charles Barry. Era o começo do Gótico Revival, o movimento de substituição do que era estrangeiro e pagão, por algo mais nativa e cristão.Barry procurou Augustus Welby Northmore Pugin. Trabalhando juntos (e nem sempre de acordo – sobre o layout simétrico de Barry ele disse a famosa frase: ‘Todo grego, senhor. Detalhes Tudor em corpo clássico’.) Pugin criou uma fantasia vitoriana que hoje é condenada como sendo a ‘Disneyficação’ da história. Os arquitetos normalmente achavam que os prédios não eram góticos o suficiente; como o Great Hall do século 15 em Guildhall, que ganhou as torres lateriais e central só em 1862. A discussão entre os classicistas e góticos surgiu em 1857, quando o governo contratou Sir George Gilbert Scott, líder do movimento gótico, para reprojetar o novo quartel-general do Foreign Office. O projeto de Scott enfureceu o anti-gótico Lord Palmerston, então primeiro-ministro, que prevaleceu.
Mas Scott armou sua revanche, construindo um escritório em que todos odiavam trabalhar e erguendo edifícios góticos por toda a cidade, entre eles o Albert Memorial e a St Pancras Chambers, a frente da estação que contém o Midland Grand Hotel. St Pancras foi concluída em 1873, depois que a Midland Railway encomendou a Scott um terminal londrino que desbancasse seu rival ao lado em King’s Cross. Aproveitando a oportunidade para mostrar sua maestria nas formas góticas, Scott construiu um castelo assimétrico que não deixava a estrutura da ferroviária aparente, que por sua vez já era uma maravilha da engenharia feita pelas mãos de William Barlow.
Outros prédios charmosos e imponentes neogóticos são o Royal Courts of Justice, o Natural History Museum, e a Tower Bridge. Sob a influência do movimento Arts and Crafts, o medievalismo facilmente se transformou em falso-Tudor, como a bonita Liberty Store em branco e preto. A Primeira Guerra e a chegada do modernismo trouxeram o espírito de renovação e uma estética mais austera. O Freemason’s Hall e a Broadcasting House da BBC são bons exemplos do estilo de prédios mais baixos dos anos 1920 e 30. Este ultimo está passando por reformas e modernização.
Talvez o melhor exemplo do modernismo entre-guerras esteja no London Zoo. Construído pelo imigrante russo Bertold Lubetkin e pelo grupo Tecton, as rampas em espiral da Penguin Pool (não é mais usada por pinguins) mostravam todas as possibilidades do concreto. O material também foi usado no metrô, possibilitando a construção mais rápida e mais barata dos túneis com simples linhas e curvas.
Não havia nada de enérgico nem de barato no prédio art deco do Daily Express. A estrutura cromada com vidro negro foi erguida em 1931 e é um exemplo de construção ‘curtain wall’, em que a fachada está literalmente sustentada na estrutura interna do prédio. O prédio foi reformado, mas o detalhe original – o piso rebuscado, corrimões de cobras e lustres detalhados – permanecem intactos. O acesso público não é garantido, mas vale a pena dar uma espiada pela porta para ver o que o Architects’ Journal chamou de ‘monumento definitivo da Londres dos anos 1930’.
O bombardeio aéreo da Segunda Guerra deixou várias áreas de Londres arruinadas, sendo outra oportunidade dos construtores lucrarem. Lamentavelmente, a cidade recebeu poucas melhorias com a reconstrução; em muitos casos, foi piorada. A destruição deixou a cidade com falta de moradia, de modo que os arquitetos tiveram a chance de demonstrar sua eficiência em colocar um grande número de famílias em torres de apartamentos.
No entanto, houve alguns sucessos pós-guerra, inclusive o Royal Festival Hall em South Bank. Único sobrevivente do Festival of Britain de 1951, o RFH foi construído para celebrar o fim da guerra e o centenário da Grande Exposição. A vizinha Hayward Gallery é um exemplar da arquitetura brutalista dos anos 1960. As décadas de 1970 e 80 ofereceram algumas alternativas ao brutalismo: pós-modernismo e high-tech. O primeiro é representado por One Canada Square de Cesar Pelli em Canary Wharf , Docklands, um obelisco exagerado que se tornou o símbolo arquitetônico dos anos 1980 e suscita sensações ambíguas nos moradores da cidade.
O prédio do Lloyd’s of London, de Richard Rogers (ver pág.98) é o melhor exemplo londrindo high-tech, no qual as estéticas comercial e industrial se misturam para produzir o que sem dúvida é um dos mais significativos prédios ingleses desde a guerra. Criticado quando foi concluído em 1986, o prédio ainda consegue desbancar projetos mais novos. Também quebrando paradigmas está o NatWest Media Centre, da Future Systems, em Lord’s Cricket Ground (St John’s Wood Road, St John’s Wood, NW8).
Feito de alumínio em um estaleiro e praticamente pendurado sobre o campo, é uma das mais ousadas construções atuais de Londres, principalmente considerando sua tradicional localização. E a multicolorida Peckham Library (171 Peckham Hill Street, Peckham, SE15) de Will Alsop, redefiniu a arquitetura comunitária, vencendo o Stirling Prize em 2000. Graças ao Heritage Lottery Fund, há muita arquitetura nova inserida em prédios antigos. A fantástica transformação da usina do Bankside em Tate Modern, feita pelo escritório Herzog & de Meuron, talvez seja o mais famoso exemplo.
Já o exercício de complexidade de Lord Norman Foster no British Museum, onde a Great Court de £100 milhões criou a maior vão coberto da Europa, é o mais impressionante – cada um dos 3.300 painéis triangulares de vidro é único. Qualquer discussão sobre arquitetura em Londres é impossível, é claro, sem mencionar Foster. Com seu City Hall e a icônica 30 St Mary Axe (antes Swiss Re Tower conhecida como ‘The Gherkin’) na City, sua prática prolífica trouxe novos padrões para o design do esporte com o novo Wembley Stadium – o arco se tornou outro símbolo imediatamente reconhecido na vida esportiva da cidade.
Você terá de pegar o DLR e ir para o sul se quiser ver outro bonito prédio do escritório Herzog & de Meuron, o centro de dança Laban, em Deptford (Creekside, Deptford, SE8), que lhe rendeu o Stirling Prize em 2003. A capital também tem o primeiro prédio do aclamado Daniel Libeskind, que projetou um pequeno centro de graduação para a London Metropolitan University (Holloway Road, Holloway, N7).
Mas os superarquitetos estrangeiros não abocanharam todos os principais projetos. Em Whitechapel Road, E1, David Adjaye projetou seu segundo Idea Store (http://www.ideastore.co.uk/), além de seu aclamado prédio em Poplar (Chrisp Street, E14). Com estética limpa, está anos luz da tradicional biblioteca vitoriana em design, nome e função. Para confirmar seu status como importante personagem, ele também é responsável pela nova galeria Rivington Place, sendo seu design influenciado por uma máscara sowei, de Serra Leoa. Notavelmente, esses três marcos estão na região leste. À medida que o foco da capital se volta para a regeneração do leste de Londres alavancada pelas Olimpíadas, eles são somente os percursores de um longo período de mudanças que vão causar um grande impacto no panorama da cidade. Para ver aonde as coisas estão indo, saia do metrô na estação em Goodge Street e visite a New London Architecture (Building Centre, 26 Store Street, Bloomsbury, WC1, 7692 4000). Inaugurada em 2005, esta exposição permanete tem como objetivo fornecer uma visão geral dos principais desenvolvimentos de Londres, tanto para o visitante quanto para o profissional em design.
A impressionante obra-de-arte do centro é uma maquete de 11,7 metros de comprimento, que mostra desde Battersea Power Station ao sul, subindo para King’s Cross, indo até Docklands e Stratford a leste. É uma fascinante visão aérea da cidade como ela é hoje e como será num futuro próximo. Atualmente há mais de 150 projetos ainda não construídos que estão expostos na maquete, inclusive as propostas espetaculares de 300 metros de altura para a City e London Bridge.
Embora impressionantes, representam somente uma fração do investimento de £100 bilhões que será feito nas próximas duas décadas na cidade. Especialmente interessante é a parte da maquete com a proposta para as instalações das Olimpíadas de 2012, usada pela equipe responsável durante a campanha pela candidatura da cidade. A maquete da NLA também ajuda a entender como as diferentes partes da capital são interligadas. O modelo é acompanhado por uma exposição sobre algum outro aspecto do ambiente da cidade.

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